segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A história de uma entidade de cura: o Carranca



Por mais de cinco mil anos o povo de Avinand cresceu em consciência, forte e resplandecente de cultura e civilidade. Tamanha luz se fazia perceber na beleza dos seus habitantes que viviam em equilíbrio e abundância. O fato é que muitos dos mistérios que hoje esgatamos surgiram primeiro em Avinand e honrados foram os mestres e mestras que viveram na grande ilha. Possuía belas cidades e não permitia a presença de estrangeiros. Quando um barco se aproximava era advertido, se persistisse era incendiado por raios. Muitas são as lendas nórdicas que falam de um povo assim. Mas o mito esconde apenas o grande domínio que este povo tinha a respeito dos cristais e do seu poder para a defesa. Tal isolamento fazia parte de uma tradição, já que em tempos mais antigos ainda o povo de Avinand fora expulso de suas terras originais ao norte da Europa. Um povo deixado em barcos para morrer e que manteve a unidade até chegar a ilha. Todos do inicio compreenderam a necessidade da unidade para a sobrevivência e do nada eles criaram uma grande civilização.

A força da involução que luta pela forma original, estava sempre a espreita, até encontrar uma brecha, quando o governante morreu num acidente nas rochas a beira mar e não tinha herdeiros, o povo entristeceu-se, e assim, tristes baixaram a guarda, e o lado sombrio apossou-se de muitos corações. Neste tempo, o Carranca, cujo nome original era Not, foi um iniciado na arte da leitura da natureza, o Elon, tratava-se de um jovem poeta, amante das mais belas mulheres, uma criatura de uma beleza única e capaz de uma ternura que comoveria o mais racional dos seres. Carranca tinha um sonho recorrente, no qual em meio ao nevoeiro ele via chegar um barco negro com uma carranca medonha em sua proa. Avinad quer dizer “aquela que nunca será possuída”. A única mudança é que o barco aparecia cada vez mais próximo. Intrigado ele buscou os mestres que lhe informaram que o seu sonho revelava a queda de Avinand e a vitória das trevas sobre as criaturas.

Por dias ele vagou saindo do seu sonho de poeta e consciente da densidade que tomava conta de seu povo, já não mais havia o brilho dos olhos e as palavras tinham rudeza e maledicência. A perda do líder de forma trágica e sem herdeiro dividiu o poder entre muitos que lutavam para dominar partes maiores da ilha. A estrutura foi quebrada e ao invés da ordem, surgiram aqueles que buscaram o caminho mais fácil utilizando a violência. A dor o levou a observar o Elon com mais atenção e nele viu escrito que a destruição faz parte da evolução desde que sobrem as sementes. Avinand seria destruída, mas com isso milhares de essências que haviam tocado um mundo melhor, com respeito e harmonia seriam espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Avinand era um viveiro de essências fortes como deve ser cada templo. A destruição não foi um castigo, mas sim parte de um plano evolutivo para a espécie.

E assim, neste momento de percepção, concomitante avançava a escuridão e com ela os espíritos mais densos e os ancestrais tortos aproximavam-se de quem lhes dessem aberturas. Not sabendo então do motivo da destruição, buscava uma saída para que a face negra da força não conseguisse que retrocedêssemos alguns milênios no processo. Então dançou por três dias em círculo, até ter a revelação da atitude a ser tomada. Primeiro as oferendas devidas, depois Not invocou os deuses e a sua suplica foi tão verdadeira e corajosa que um circulo se formou no céu enchendo de graça seu rosto que ainda mais belo ficou.

Enquanto Not conectava-se para buscar uma cura, na cidade algo acontecia, os lobos que até então eram grandes amigos dos humanos passaram a atacar e de maneira tão eficiente que mais pareciam um exército bem treinado. As brigas pelo poder de Avinand tiveram que cessar e a unidade se formou novamente e uma grande luta começou a ser travada, com mortes para ambos os lados. Em pouco tempo homens agonizavam no chão com grandes mordidas, enquanto outros se refugiavam em árvores. Havia um lobo incomum, a fúria, os dentes, a valentia lhe destacava, e um dentre os muitos homens que lutavam, o enfrentou com a mesma garra do lobo, defendendo e tentando atacar até que o mais absurdo aconteceu, o lobo parou de lutar e fitou seu oponente por algum tempo, ambos se reconheceram e o lobo se afastou. Na mesma hora todos gritaram que aquele era o novo soberano. 

E assim, quando os lobos desapareceram todos aceitaram o novo soberano chamado Sameri. Com a unidade estabelecida restou o lixo que ainda infestava o ar. Not, quando foi à consagração do soberano que recebia a multidão, suplicou aos deuses que lhe desse mais um só poder, o de afastar todo o mal. Nesse momento, seu lindo rosto passou por uma transformação, deformou-se tipo uma carranca dos antigos navios que tinham como magia o poder de afastar o mal, sua voz desapareceu, e assim ele saiu pela multidão que nunca havia visto criatura tão deformada.

Os corações foram apoderados de um sentimento novo, um alivio que surgia assim que Not, agora Carranca,  passava e ao invés de repulsa todos recobravam o antigo sentimento do querer bem e da aceitação do amor como sentimento regente. As trevas recuaram à medida que o Carranca avançava e diante dos grupos mais densos, mais seu rosto deformava. Todos foram sendo tomados por um sentimento de bem aventurança. O soberano foi entronado e logo se via que a sua nobreza não estava apenas na luta contra o lobo alfa, mas dele emanava a luz e a força que eram a essência daquele grande povo.

Sete dias após a luta, um grande terremoto afundou a ilha por inteiro e as essências mais puras que a terra já conheceu espalharam-se por todo o planeta como sementes. Em gratidão e como voto de reverência, o Carranca permanece com a forma que lhe deu o atual nome por sua livre escolha de continuar o trabalho de afastar os espíritos densos. Por seu feito foi recebido no conselho dos mestres e com eles foi formado, pelo mérito de realizar o maior feito coletivo em se tratando de sortilégio.


O Carranca é alguém capaz de um gesto cuja grandeza é incomparável, por qualquer um ele entraria no fogo e com qualquer obsessor se confrontaria. Invocar o Carranca, fazer a postura dele, e dar sua benção é um passe de grande cura. O Carranca não hesita diante de nada por mais feio que possa parecer.